quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal - versão Marconi

Lá esteve ele, Pietro, com sua idade contada nos dedos das mãos, com o chinelo na janela, esperando o bom velinho. Distraiu-se por um momento, foi alguém que lhe chamou a atenção sem motivo, quando olhou novamente lá estava uma mão, com uma luva branca e a manga vermelha do casaco, colocando um pequeno caminhão sobre seu chinelo. O brinquedo? Não importava, o tamanho ou a qualidade, ele vira, o papai Noel existia.

Lá estava ele, Pietro, com a puberdade juvenil estampada no rosto, observando o templo ao seu redor. Enfeites, fé, pensamentos direcionados. Preferia ocultar seus pensamentos e opiniões, ainda que pertinentes para poder estar ali, participar de algo. Precisava daquilo, ainda não estava preparado para a verdade, esta que já possuia, e por não saber o que fazer, preferia ignorá-la, preferia ser o que se esperava.

Cá estava ele, Pietro, observando, afastado. O olhar velho e cansado, mas com um certo brilho incandescente à trepidar. Rasgou suas origens, suas bases, e largou-as sobre a brasa flamejante. Despedaçou-se então, despiu-se da hipocrisia, da superstição, do útil, do inútil, da superestima, da subestima, da estima, do sonho, da realidade, da vida e da morte. Caiu, já não restava-lhe como continuar, foi então que algo brilhou, de dentro de si mesmo, então explodiu num único raio de luz.

Ali está ele, Pietro, observando, afastado. Nu para o mundo, novo, renascido. Agora entendia, sobre si e sobre os outros, e além disso, aceitava naturalmente este conhecimento como parte do todo que se tornara. Andou por aí, passou por pessoas alegres, outras felizes, outras contentes, e via a diferença nisso. Andou em silêncio, sendo esse só quebrado quando encontrava no olhar de outrem aquela sombra taciturna, então sorria e dizia:

- Feliz Natal.

1 comentários ébrios:

SO.L. disse...

É, Feliz Natal.
Bah!
É a vida.