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quinta-feira, 28 de abril de 2011

O tempo é atemporal

Se queres chamar algo de Deus, meu caro, chame ao tempo.



Chronus é provavelmente o ser mitológico que melhor representa o título Deus.
Não é algo que surja do nada, havia a terra e o céu, a partir deles surge o tempo, e com o tempo as formas de vida.
O tempo já foi dito como inexistente, mas na verdade ele é atemporal. Não se pode medi-lo. Ele não é uma energia ou consciência cósmica. Não é ele que nos faz envelhecer, muito menos ele que diminui as nossas mágoas. Tudo isso é apenas consequência da sua existência.
Ele é aquilo que é, esta seria uma ótima descrição para ele.
Talvez o tempo seja apenas a ordem natural das coisas, talvez ele seja a força da natureza, talvez ele seja o destino, ou simplesmente o acaso.
Ele não passa, ele não flui. Nos que passamos ou fluímos por ele.
Ele não tem regras.
O tempo é tudo.
O tempo é nada.
Nós somos o tempo, e para ele nós nem existimos.

O tempo, meus caros, é atemporal.

domingo, 7 de novembro de 2010

O Sonho do cotidiano

Disparo a arma apontada para minha cabeça, microssegundos da morte certa, mas eu sou o que penso, e meu pensamento é muito mais rápido que isso. Até que tudo termine já terei criado infinitos universos, infinitos sonhos. Mas pensando bem, o suicídio é sempre tão presente em mim.

Acordo com alguém me cutucando, me assusto, devo ter perdido minha parada, mas era só um rapaz com um bilhetinho pedindo dinheiro. Verifico minha jaqueta, 5 centavos, bem, afinal é o que ele pedia no papel, estranho, nunca dou dinheiro assim.
Não estou no ônibus, estou no metro. Mas que eu estou fazendo no metro? Olha em volta, uma guria sentada comigo, não conheço, pessoas em volta, uma de bicicleta. A garota ouvia música no seu smartphone, resolvi ouvir também, não encontro meu iPod. Como assim estou sem ele? O que está acontecendo?
O trem para na estação aeroporto, mas eu não desço. Novamente estranho isso, não tenho descido em outra estação ultimamente. Também não desço na rodoviaria, mas não consigo lembrar o que eu faria no mercado. Olho para os olhares em volta, sedentos por algo diferente... cultura... Epifania. A Feira, é pra lá que vou, não vou?

Vou na Feira, passeio pela ala internacional, vejo alguns títulos, mas não compro nada, não posso gastar nada. Vou ver o rio, esse ano não tem navios para se embarcar. Caminho pela feira, tem uma pontezinha esse ano na praça? Tá, esse sonho tá passando dos limites. Bem, vamos atravaessar a ponte então. HEY, quem é aquele? O David Coimbra? Assim, passando por mim? E eu sem nada pra pedir autógrafo...

Vou no Santander, que isso? Quadros vivos. E pessoas famosas neles. Tá ficando muito tenso isso.

Ando pelas bancas, não posso comprar nada, mas tem alguém me observando. Aquela jovem ali, observo de volta, mas ela não desvia o olhar, continua me encarando. Droga, eu não desvio o olhar para os livros da sua banca pra tentar puxar um papo, e sou arrastado pela multidão. Mas peraí, ela não viu meu olhar, eu to de óculos escuros. O que estou fazendo de óculos escuros? Nunca uso isso, ou quase nunca. Bem, depois eu volto, Travessuras e Gostosuras na Feira do Livro.

Vou pra Casa, a do Mario, sabe? Pessoas esdrúxulas tirando foto da vaca pintada sem nem olhar pra ela, é cultura isso?

Volto, a garota sumiu, droga, terei de voltar outro dia. Encontro uma amiga da faculdade, justo aqui, no meio de tanta gente. Encontro mais a frente uma professora, daquelas que eu gosto.

Vou pra casa, a minha, sabe? No metro garotinhas ficam me cuidando, que coisa isso, e eu de óculos escuros, ainda bem, são jovens demais, ficam se empurrando aparentemente dizendo uma para a outra para virem até mim. Aiai, essas moçoilas.

Centro de São Leo já? Vou pra praça. No caminho mais moçoilas, 15 ou 16 anos, cheiravam a isso pelo menos. Passo por elas, murmurinho, "que gostoso" sussurrado, olho de lado, "ele ouviu, que vergonha" sussurrado, risinhos.

Ninguém na praça. Vou pra casa. Cansado, foi um bom dia, foi um bom sonho, sozinho, como os melhores sempre são.

Acordo.
E a bala? Ah, já desviei, essa bala de tudo que estava me matando aos poucos, e que ninguém me salvava. Me livrei sozinho, como sempre. Agora é voltar pras discussões que deixei pendentes.

sábado, 1 de maio de 2010

Outono particular.

Pare para pensar: a clorofila se esvai, tudo que presta e tudo que vale a pena seca, murcha e morre. Tudo.

A natureza humana é a decadência. Uma mania de perseguição bem fundamentada. Uma esquizofrenia coerente. Pulsos e punhos, carótidas e coronárias. Somos pontos de quebra, de tensão, de impacto.

Vou contar uma pequena estória, que não aconteceu comigo.

Um belo dia um rapaz estava caminhando pelas ruas. Era outono. O assoalho coletivo forrado de folhas secas, amarelas e marrons. Pessoas de bicicleta pela rua. Pessoas a pé, ou dentro de seus carros. Mas o rapaz não estava a pé, pois não rumava a lugar algum. Apenas trocava alguns passos consigo mesmo, em padrão aleatório. Trocando pernas, a tropeçar a cada esquina, a esbarrar em cada senhora que insiste em andar com a bolsa grudada em seus rins e com a cabeça vigiando as próprias canelas.

Uma dessas senhoras fidedignas esbarrou nele com mais força do que as demais, e virou-se para xingá-lo de forma proporcional ao crime que ele cometeu. O rapaz simplesmente seguiu seu andar aleatório, o que despertou ainda mais ira na nossa querida senhora. No ápice de sua ira, em seu instinto belicoso enterrado há tanto tempo, a mulher de meia idade correu atrás do rapaz e parou em sua frente, encarando-o e dizendo "Mas tu não tem respeito, é?! Acha que pode simplesmente empurrar as pessoas ao acaso do teu caminho assim? Quem tu pensa que é, seu muleque?!". Ao que o rapaz responde "Eu sou algo, e tu não é ninguém, minha humilde senhora. Passo por ti e então nunca mais. Esse é o meu outono, e tu nem é folha de minha árvore. Pois assente-te no chão da calçada com as demais enquanto te deixo para trás, e passar bem.", de forma pacata.

A mulher explode em diversas folhas secas, amarelas e marrons.

1,3m² de matéria seca. Morta.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Remaura-te, ou viva

Era madrugada de 31 de dezembro, Pietro estava acordado. Estava sem café já fazia alguns dias, afinal, a maldita cafeteira estragou novamente.
Ele lia, ouvia e via. Lia Jabor [o Arnaldo]. Ouvia Cunha [o Éverton]. E via Casanova [o de Fellini]. Tudo o fazia pensar o que não era, onde não estava, a época a qual não pertencia. Assim como foi todo o ano que se passara, algo havia se perdido em um passado não tão distante, que mesmo ainda sendo o mesmo, já não o era. O mundo colorido, por opção era cinza, e por algo ainda inexplicável, estava preto e branco.
Não, não são as infinitas possibilidades existentes entre essas duas cores [ou não cores] que lhe tingiam a vista, era apenas o vazio e o cheio, o tudo e o nada, o mais escuro preto, e o mais cintilante branco.
E era pior do que a morte.
Subitamente, pois diferente não poderia ser, aconteceu. A Epifania. Pietro, este Pietro, estava acostumado com epifanias, elas faziam parte da sua vida desde sempre. Mas esta, era estranha, tudo pareceu se encaixar, o universo fazia sentido. As linhas, os sons, as imagens, tudo isso fazia um ballet de significados tão presentes e tão distintos que nada estava acima ou abaixo deles.
Foi sensação mais maravilhosa do mundo, sublime, egocêntrica, megalomaniaca, simples e bela.
Foi ao jardim, olhou as estrelas, pensou:
"Que grande merda, já foi tarde sua porcaria de ano. Boa noite estrelas, adorei sua companhia."
E voltou a ler Jabor, ouvir Cunha e ver Casanova, e tudo agora fazia sentido.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Pequeno conto #1

Se alguém olhasse para Felipe naquele momento diria que ele devia estar concentrado em algo muito importante, pois estava de pé, sem se mexer a algum tempo, com o rosto virado para o horizonte no templo no alto do morro.
Porém na verdade estava apenas olhando algumas borboletas voando logo a frente, sim ele tinha muitos problemas ultimamente, mas já tinha decidido o que iria fazer e não queria mais pensar no assunto para não cair em tentação de dessistir de tudo. O que ele queria agora era um pouco de paz de espirito para encarar o que vinha pela frente, e nisso as singelas borboletas estavam lhe ajudando.
De repente abaixou a cabeça, e falou em meio a um suspiro:
- Lá vamos nós então...
Felipe era, bem, diferente, não que fosse covarde, mas muitas vezes para ele viver no seu mundinho de imaginação lhe parecia melhor do que um possível fracasso no mundo real.
Não tinha inimgos, mas também não tinha amigos de verdade, enquanto descia o morro a pé ficava pensando em todos aqueles que haviam passado por sua vida, como eram e como estavam. Sempre havia evitado ter relações muito íntimas, pois o medo de um dia elas acabarem lhe parecia pior do que nunca tê-las. Mas agora, ah agora, ele bem que gostaria ter escolhido nunca ter conhecido aquela garota. O nome dela? Cris.
Após subir no onibus e pegar seu lugar habitual, ali, logo ao lado da roleta, sentava do lado do corredor para evitar que alguém sentasse ao seu lado, artimanhas que se aprende quando se passa uma vida andando de transporte público. Ele começou a pensar o que nela o atraía dequele jeito. Sim ela era bonita, inteligente, simpatica, ou seja cheia de qualidades, mas ele conhecia várias garotas com esse perfil, o certo é que nunca encontrou a resposta para isso.
No momento em que desceu do ônibus seu coração disparou e aquele medo que sempre o controlou parecia crescer insuportavelmente, mas seguiu em frente sabia que se pensasse em desistir e parasse por um segundo que fosse acabaria desistindo completamente. Lembrou do que seus amigos disseram quando lhes contou o que sentia e das conversas que já havia tido com Cris, a sua maioria pela internet.
- Cara, tá na cara que ela ta afim de ti, só tá te faltando atitude.
E junto com essa vieram exclamações bem semelhantes, mas mesmo assim não se sentia seguro, afinal seus amigos eram dados a gozação.
Chegou ao lugar do encontro quase tremendo, era uma bomboniére no centro da cidade. Sentou-se e tentou se acalmar, respirou profundamente, quase rezando para que seus amigos estivessem falando sério e que tivessem razão.
Algum tempo depois ela chegou, para Felipe parecia que todo o ambiente havia se iluminado. Ela sentou, conversaram um pouco, até que ela perguntou:
- Ãh, tu tinha me dito que queria me falar algo hoje, o que era?
Rodrigo era do tipo que olhava nos olhos quando conversa, em situações normais em um momento assim ele desviaria o olhar e desconversaria, mas por mais que tentasse isso se tornou ímpossivel naquele momento.
Meio sem jeito ele segurou a mão de Cris por sobre a mesa, deu um pequeno suspiro, quase imperceptível, e começou a falar:
- Bem... é que... nem sei como dizer...
Parou por um momento como se estivesse escolhendo as palavras, então abriu a boca para falar novamente:
- Sabe eu acho que te amo...
Rodrigo ficou olhando para Cris, suas palavras acabaram, a frase que tanto pensou em dizer foi dita, aquilo que tanto o aguniou, e por tanto tempo, ficou surpreso em como aquilo podia ser simples de ser feito. Após isso a única coisa que conseguiu pensar em falar foi:
- Eu também acho que te amo Cris.
Mas não falou, palavras agora eram desnecessárias.
Bem, o resto é história.

Material do Esdrúxulo Recanto.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Conteúdo Artístico

Agora diga-me: o que é arte? Alguma arte é melhor que outra? O que faz o conteúdo ser artístico?

Enfim, as pessoas tendem a caricaturar, a sobrepôr figuras, clichês.

Acho que nós todos deveríamos discordar, e muito. Cada ponto de vista, vindo de um contexto dentro de mentes diferentes, lugares diferentes, miopias diferentes.

Pergunte-me o significado de minha arte. Diga-me o significado do teu.

Arte não se atribui conteúdo, contexto, cor e credo. Arte é arte. Se pra ti significa algo, tu darás teu próprio significado.

O tempo escorre por entre os dedos, através da camisa, por debaixo das roupas. Cai, se espalha no chão, forma-se poça e afogo-me nela.

Acima, acima.

domingo, 2 de agosto de 2009

Diálogo?

Humano 1: Sabe de uma coisa? Alguns dizem que é o fígado, mas na verdade não há nenhum órgão com maior capacidade de regeneração que o coração.
Humano 2: Err...quê?
Humano 1: Pense bem... o coração vive se machucando, certo? Porém, diferentemente dos outros órgãos, o tratamento para regeneração é tornar a machucá-lo, e por um número de vezes indefinido.
Humano 2: Como assim?
Humano 1: Quando o coração se parte há uma grande dor e sofrimento. Ele vai definhando se deixado de lado por um tempo. A única forma de curá-lo é expondo ele de novo ao risco de se machucar. Em outras palavras, é um hematoma que só pára de doer quando recebe socos e chutes.
Humano 2: Olha, na verdade esse teórico "coração" a que tu te refere é alguma região do cérebro. O coração mesmo é um mero órgão, vital, mas sem funções emocionais. O máximo que pode acontecer é ele bombear com mais ou menos força o sangue pro cérebro e outras regiões do corpo, dando a impressão de que ele "sentiu a emoção" ou algo do gênero.
Humano 1: Ah, deixe de ser mesquinho. Por que algumas pessoas simplesmente são tão frias e sem sentimentos?
Humano 2: Na verdade nós dois somos partes da mesma personalidade. A única pessoa pra qual é impossível tu mentir de fato (engolir mentiras e cair nelas são coisas totalmente diferentes), a única pessoa que sempre será franca contigo, e portanto, quem tende a te ofender e te machucar mais. Provavelmente é o ser que tu mais odeia em toda a face da Terra. Sim, eu. Ou seja, tu mesmo.