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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O que já morreu não pode ser morto

Então é madrugada novamente, sem café. Entretanto há Vivaldi.
Há também grandes problemas com pessoas ao redor, sempre há.
E há lembranças. Das boas, das neutras, das arrasadoras... pois não há lembrança que seja ruim de verdade.
Há aquela boa lembrança de quando um dia um venerável mestre me ensinou que meus olhos podiam mostrar bem mais do que a mascará que eu pousava sobre eles, quando se olha com atenção.
Passa de relance aquela fagulha neutra de memória de pessoas que se autodestruíam enquanto eu, mas não apenas eu, lhes estendia a mão. De alguma forma é sempre tarde demais para elas.
E então, dançando ao ritmo da melodia ela vem, linda, magnífica, fazendo tremer a mais prepotente das mentes. Ela vem e entre um sorriso luminoso me pergunta como tenho passado.

Os olhos se fecham na esperança fútil de tudo acabar. Um dia funcionou, ou quase isso.
Mas ela cobra sacrifícios, desde que nasceu [sob outras músicas não tão belas], e veio cobrá-los novamente.
E então algo queimou.
Não queimou forte, não criou muita luz, fraquejou e quase sumiu.
E em cada lado do par de olhos que se fechou, um se abriu. Desumanos, cansados, furiosos e famintos.
Olham entre si, esperando.
E os primeiros olhos se abrem, ainda humanos, como um pedido de desculpas.
Ela sussurra que já era tarde. Passa o olhar para os outros olhos, vê o brilho deles, sente o calor ainda fraco que emana deles e some.
E do eco da escuridão ela canta a sua própria melodia, como lembrança e aviso, que aquela sombra a ela pertence.

E um corpo prestes a cair é levantado por seus próprios demônios, e seus rosnados perduram através da eternidade no florescer de uma nova rosa.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Vidas velhas e conhecidas

"O início, o fim e o meio..."
Talvez alguns fins a mais, e outros tantos inícios. Ou um eterno meio.

E ele passeava por Porto Alegre. Não, não era aquela boêmia da cidade baixa. Tampouco pelos belos parques, do Farroupilha ao Jardim Botânico. Não caminhava pelo cais, nem pela orla do Guaíba. Não estava entre shoppings ou mesmo o Mercado Público. Não estava em nenhuma das casas de cultura, nem em museu algum.

Gostava de todos esses lugares, isso era certo, mas estava simplesmente andando por uma velha e conhecida rua, sob um belo céu nublado.
Nessa mesma rua encontrou um sebo, tão velho e conhecido quanto. Entrou, assim como os cheiros dos antigos livros lá dentro entrou em suas narinas. Acenou com a cabeça e disse oi ao também velho casal que trabalhava no caixa.
Começou a percorrer os corredores e as prateleiras.
Quantas belas velharias. Algumas até raras. Outras sem valor algum.
Mentalmente ia lembrando de cada uma das histórias que os livros lhe traziam. Guerras, conquistas, amores, romances, traições, loucuras, mistérios, alegrias, filosofias... ah, mundos e fundos, literalmente.
O subconsciente lhe transbordava de citações que sequer lembrava de um dia ter lido.
O consciente buscava algum livro de algum autor preferido.

De alguma caixa de som escondida começa uma música calma, mas bela. Fechou os olhos, sim, era Elvis.
Sorriu e voltou às prateleiras.
Sem motivo aparente olhou para a entrada do sebo. Tão velho e conhecido. E viu um casal, demorou-se alguns segundos os olhando e voltou para os livros ao alcance da sua mão.
Eles não queriam entrar, mas os amigos os empurraram para dentro. Cada um o olhou demoradamente.
O casal passou rapidamente por eles, e se ele os notou não deu sinal algum.
Os outros lhe cumprimentaram, um a um. E ele os respondia polidamente, sem nunca desconcentrar-se dos livros ou ao menos virar-se para olhá-los.
Aquele pequeno e estranho grupo o olhava desconfortável, enquanto ele parecia nem os notar. O provável era que estivessem desconfortáveis exatamente por causa disso.

No fim ele encontrou três livros dos quais estava procurando. E então foi falar com o velho casal do caixa. Conseguira alguns trocados de desconto, oras, melhor do que nada.
Ao sair do velho sebo, parou ao lado da vitrine, uma leve garoa caía lá fora e precisava proteger os livros.
Fazia isso e uma mão pousou no seu ombro, e uma voz lhe pedia para conversar. Conhecia a voz, conhecia a mão e conhecia melhor ainda a conversa.
Terminou de arrumar os livros e a mão continuava em seu ombro. Lentamente colocou sua mão entre ela.
O resto foi extremamente rápido, apesar de não parecer ter sido assim.
Ele apertou e torceu a mão. Ficou cara a cara com o dono dela, que começava a gritar por causa da dor. Ele sorri calmamente, diz não e segue pela velha e conhecida rua, deixando para trás alguns dedos deslocados na mão de alguém.

O infinito não tem início ou fim, é um eterno meio.

quarta-feira, 28 de março de 2012

E a vida segue, vai e volta na roda do ka

Preciso de um texto pra falar de mim, e então acabar de vez com essa palhaçada de uso de linguagem para fazer isso. Não que seja ruim, mas é aprisionante.

A pergunta que bate na cabeça não é "o que falar", mas sim "por onde começar?". Afinal, muita coisa tem acontecido desde a última vez que escrevi algo honestamente aqui. Convenhamos, sou do tipo ótimo de mentiroso que sempre fala a verdade.

Comece do princípio, fala alguma voz. Mas o caso é que nem sei exatamente qual dos princípios ela se refere.
Como já falei em alguns textos, eu estava vazio. A casca daquilo que um dia tentei ser, e sem recheio algum. Talvez eu mesmo tenha procurado me tornar assim na expectativa da vida se tornar mais branda.
Sonho tolo. Quem uma vez experimenta o azedo do conhecimento, nunca mais consegue votar a ser o que era.

Nesse tempo vazio conheci muita gente interessante. Amei, ah se amei. Amo ainda, pois é assim que é.
Aliás, começo por aí, simples e direto. Meus três melhores dias até hoje foram os que passei no Rio de Janeiro [morram conterrâneos gaúchos que me chamam de traidor por isso] do lado da guria mais encantadora que já conheci. A senhorita Paula Borges. E não, não estamos mais juntos. Pois distância é uma droga que mata mais rapidamente que o ar, e torna pequenos problemas em grandes bolas de neve. É da vida, mas amo essa moça, de quem tive que me distanciar para aguentar a carência e a falta que eu estava sentindo.

Estando eu morrendo de carência e "vazio", como disse anteriormente, tive um outro caso. Que durou seis meses, mas sinceramente, se tornou um decepção. Sério, qualquer amizade ou relacionamento comigo deve ser baseado na confiança. A partir do momento em que alguém começa a mentir e enganar, se torna uma decepção.
Quem vive demais no seu próprio mundinho, perde tudo o que os outros tem a oferecer. Regra fundamental.

Aliás, abrindo um pequeno parentese, hoje me veio um bom pensamento, vamos ver se consigo reproduzi-lo bem aqui.
Não há um limite para o pensamento humano. Pois sempre há variáveis e conhecimentos que podemos aprender. O único limitador está em aceitar de onde esse conhecimento vem. Aí está a verdadeira humildade.
Alguém humilde não é aquele que se rebaixa e não admite suas qualidades de forma plena, mas naquele que reconhece que há algo para aprender em tudo, até na mais esdruxula das coisas, na menor das ações, no mais desprezível ser-humano. Sim há sempre algo a aprender, se estivermos dispostos a olhar e escutar de onde quer que venha o conhecimento.

Voltando a mim, nas últimas semanas algo ótimo está acontecendo. De alguma forma aquele vazio está se preenchendo. Tenho vários eu-líricos, e os sinto voltando depois de um longo tempo solitário. Sinto a imaginação fluir em formas diversas. Sinto ânimo em sentar e escrever um texto enorme, ou fazer um dos meus retratos à lápis.
Vai ver é o tal ano do Dragão, trazendo o bom e o ruim e doses absurdamente megalomaníacas.

Estou lendo mais, conhecendo mais gente, reconhecendo quem por algum motivo me afastei.
Ainda não me aproximei de todos que quero me reaproximar, às vezes a tarefa se torna mais complicada. Preciso estar pronto.

Aprendi a viver sozinho, aprendi a viver por fora. Tive uma infância fodida, tive um pai de bosta. Me preenchi de uma arrogância oculta para sobreviver nesse mundo, me cobri com uma soberba que achava justa, e escalei na torre de orgulho que eu mesmo contruí. Tenho história e tenho defeitos. Se isso me torna feio por dentro, que seja. Serei o feio honesto que sempre fui. Não mudei para as pessoas que mais amei, não vou mudar por aquelas que nada mudam na minha vida.

Vou ali ouvir um blues, vou tomar um café e vou dormir. Vou sonhar e não vou lembrar. Vou seguir no mundo, vou criar mundos e talvez destruir alguns.
Vou ser mais simpático, vou ser mais carinhoso, vou ser mais duro, vou ser mais cruel, vou ser mais protetor, vou ser tudo o mais e tudo o menos. Pois isso não é mudar, é se adaptar.
Vou lá viver a vida, onde quer que ela esteja.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Torre, a Roda e o retorno


Estava com o livro que continha a culminação da história que a tanto estava acompanhando, que a tanto começou a fazer parte de sua vida.
O final o surpreendeu, o surpreendeu desesperadamente. Mas era o único final possível, era o único correto. E então ele enfileirou aquele livro ao lado dos seus antecessores, sete livros e uma história que precisava ser lida.

A maioria dos escritores conhece a sensação de necessitar contar alguma história, algo que realmente precisa ser feito. Assim foi com Stephen King, ao menos é o que ele mesmo declara em sua saga, entretanto esta é a primeira vez que sinto o inverso. Não uma história que precisa ser contada, mas uma que precisava ser lida.

A Torre Negra sempre me chamou, aquele livro se oferecendo tão belamente, até o dia em que comecei a devora-lo. Alias, todos os sete. Eu precisava lê-los tanto quanto King precisava escreve-los. Alguma ligação entre os dois fatos? Improvável, mas não impossível.

A Torre me ajudou a compreender algo, novamente. O ka é uma roda. É uma eterna renovação, um esquecer e lembrar ininterrupto. É deixar de ser e de existir, para então se reencontrar e reviver.
É como começar do zero, vez após outra. Não, zero não. Pois alcançar a Torre tem a sua recompensa. Cada vez que a vida se renova há algo nela que muda, algo que de alguma forma causa o diferente, algo que tínhamos e não vai embora com o novo ciclo. E por isso, apesar do vai e vem, vida e morte, a vida é bela. Há renovação.

Precisei ler A Torre Negra, pois era como mais um dos meus ciclos terminava. Precisei ir até depois de quando o próprio King diz que devemos parar, precisei subir até o topo juntamente com Roland de Gilead. Não me arrependo, mas concordo com o escritor, não leia até o fim, provavelmente ficar sem conhece-lo será melhor.
Ciclo cumprido, roda girada, recomeço. Acordaram em mim as lembranças que há muito estavam esquecidas, talvez seja essa a recompensa da vez, ou talvez seja outra que ainda não reconheci.

Só a algo a fazer, continuar em frente, pelo deserto, novamente em busca do ka. Novamente em busca da Torre Negra, pois o homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.
Longos dias e belas noites.

Haverá água se Deus quiser.














segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Velhuscos, ah, meus velhos.



Velhuscos são aqueles caras (ou aquelas) que passam pela tua vida e te ensinam algo. Claro, muito gente ensina algo, porém aqui eu me refiro à aqueles que nada ganham em troca.
São aqueles que não são teus parentes, ou professores, ou algo do gênero.
Velhuscos são aqueles que apenas estão seguindo sua vida, e por um momento ou outro, ela se cruza com a tua. E nesse infimo momento, ele te ensina algo que tu vai levar para o resto dos teus dias.
Velhuscos ensinam, com palavras belas e sábias, por exemplos sem a intenção de ser. Só ensinam, pois são velhuscos.

Velhuscos são raros, não se engane. Aquilo que um velhusco ensina é um conhecimento solene, e não apenas um modismo da era.
Velhuscos te fazem aprender mais sobre ética, moral e humanismo do que qualquer outro professor. Não, nada daquele falso moralismo, aquilo bonitinho de se ouvir e nunca colocado em prática. Um velhusco realmente ensina sobre a vida, com as limitações que a própria vida trás.

Velhuscos podem ser chatos, podem ser legais, podem ser velhos, ou nem tanto.
Tu nunca vai esquecer um velhusco, nunca vai deixar de sentir o que ele te ensinar.

Dois velhuscos, tive eu. Um se foi no tempo, outro se foi na vida.
Velhuscos são sempre ótimos, não há como serem diferentes.
Meus velhuscos, que saudades. Me deram base e nunca foram isso, pois velhuscos não devem ser.
Velhuscos vão em frente, sempre. Velhuscos apontam e sussurram, sorriem e seguem o caminho.
Velhuscos te seguram ao correr, e te empurram ao parar.

Velhuscos, ah, meus velhos.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ele acorda

Ele acorda. Sempre na primeira vez que o despertador toca. Por vezes, até mesmo antes.

Ele tem a sua rotina, ah, já a muitos anos. Vai para o banheiro, banha-se, volta para o quarto, veste-se, pega sua grande maleta cinza e vai trabalhar.
Não come nada em casa, não gosta de preparar nada pela manhã, mas cozinha bem. Compra um café no bar da esquina e algo para comer, que varia de acordo com o dia.

Continua andando, não tem carro, tampouco gosta do ônibus durante os horários de pico. Seus sapatos são bem cuidados, pretos. Usava também óculos pretos, em contraste com sua tez clara.
Antes de entrar no prédio onde iria trabalhar, comprou mais um café, tomou, e então continuou seu caminho.

Subiu pelo prédio, trabalhava no alto, e era um prédio alto. Quando chegou, tirou seu material de sua grande maleta cinza e se pôs a fazer o que devia ser feito.

Terminou tudo com uma velocidade espantante para um dia quente como aquele. Desceu o prédio, comprou um jornal na banca e percebeu o aglomerado de pessoas na praça à sua frente.
Imaginou alguém morto ali, e as pessoas, como corvos famintos ao seu redor. Morreu com um tiro, na cabeça, caso o tiro tenha sido certeiro.

Volta para casa, banha-se novamente. Limpa os seus sapatos pretos. Guarda com cuidado a sua grande maleta cinza. Coloca alguma música clássica no aparelho de som e então senta-se em sua poltrona para ler o jornal.
Sempre fazia isso, a música clássica o ajudava em concentrar-se no que estivesse lendo. A última coisa que lia eram os obituários, nunca se sabe quem pode-se encontrar neles.

Alguém toca a sua campainha, ele não se importa em olhar quem era. Morava em um apartamento, último andar, sem elevador. A mulher subiu todos os oito andares. Pois sim, era uma mulher.
Ele abriu a porta, ela entrou. A música na sala já era outra, contemporânea. Sentaram-se, conversaram durante algum tempo.
Foram para a cama, e depois ela foi embora.

E no dia seguinte haveria mais trabalho, como sempre.


Do papel, a vida.


Ele para na frente da máquina de escrever. Já fazia meses que não o fazia. Ele passava, a olhava, e só. Vez ou outra chegou a levantar o pano colocado sobre ela para que não ficasse empoeirada, mas ainda assim não a tocou.

Desta vez não apenas a tocou, colocou algumas folhas em branco e se preparava para escrever. Olhava as folhas e pensava em uma velha frase.
"rasgar uma folha em branco é como fazer um aborto"
E era, o cheiro de novo já havia sumido daquelas folhas, mas ainda estavam ali, esperando a hora de nascer.

A máquina estava bem lubrificada e cheia de tinta, diferente do escritor. Ele estava enferrujando lentamente desde antes de parar de escrever, agora estava ali parado, com os dedos sobre as teclas, pensando no que escrever, e como.

Não queria escrever sobre a vida, não, não agora. Mas lembrou-se do aborto e começou de qualquer modo. De uma maneira louca, esquizofrênica, os dedos se mexiam em uma velocidade em que seus próprios olhos bem treinados mal conseguiam ver. Escreveu. Preencheu as páginas uma atrás da outra, preencheu vidas, belas ou feias, corretas e erradas, mas vidas acima de tudo.
Não tirou as mãos da máquina de escrever sequer para alimentar o seu vício na cafeína. Sequer lia o que escrevia, olhar, mente e coração estavam focados, mais do que nunca, no seus olhos podia-se ver o brilho mais soturno que já houve. O brilho da morte, do assassino, do pistoleiro em frente à batalha.

Não houve erros na escrita, não houve correções. Não se pode corrigir a vida, não se pode apagar o que se escreveu, mesmo que no fim não goste.
Mas sempre se pode pegar uma nova folha e criar mais uma vida.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Como compreendo a verdade

COMO COMPREENDO A VERDADE
por John Chambers

"Eu te mostrarei o medo num punhado de pó."
— T. S. "BUTCH" ELIOT
"Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença."
— ROBERT "SUNDANCE" BROWNING

O pistoleiro é a verdade.
Roland é a verdade.
O Prisioneiro é a verdade.
A Dama das Sombras é a verdade.
O Prisioneiro e a Dama são casados. Essa é a verdade.
O posto de parada é a verdade.
O Demônio Falante é a verdade.
Nós fomos para baixo das montanhas e essa é a verdade.
Havia monstros embaixo da montanha. Essa é a verdade.
Um deles tinha uma bomba de gás entre as pernas e fingia que era seu pênis. Essa é a
verdade.
Roland me deixou morrer. Essa é a verdade. Eu ainda o amo. Essa é a verdade.

Quando é que uma porta não ê uma porta? Quando ê umbral, e essa é a verdade.
Blaine é a verdade.
Blaine é a verdade.
O que tem quatro rodas e voa? Um caminhão de lixo, e essa é a verdade.
Blaine é a verdade.
É preciso vigiar Blaine o tempo todo. Blaine é um saco, e essa é a verdade.
Tenho toda certeza de que Blaine é perigoso, e essa é a verdade.
O que é que é todo preto, branco e vermelho? Uma zebra envergonhada, e essa é a
verdade.
Eu quero voltar e essa é a verdade.
Eu preciso voltar e essa é a verdade.
Vou enlouquecer se não voltar e essa é a verdade.
Não posso voltar para casa de novo se não encontrar uma pedra uma rosa uma porta e
essa é a verdade.
Chuu-Chuu, e essa é a verdade.
Chuu-Chuu, e essa é a verdade.
Chuu-Chuu. Chuu-Chuu. Chuu-Chuu.
Chuu-Chuu. Chuu-Chuu. Chuu-Chuu. Chuu-Chuu.
Estou com medo. Essa é a verdade.
Chuu-Chuu.


[King, Stephen
As terras devastadas / Stephen King, tradução de Alda Porto. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2005
526 p. (A torre negra, v.3) ISBN 85-7302-669-3
Tradução de : The Waste lands]

terça-feira, 3 de maio de 2011

Pursuing happiness,
ou apenas andando ao léu.

.

Sentado no ônibus, olhando para as casas, pessoas, animais e vidas que ficavam para trás, juntamente com a paisagem, ele não pensava em como a vida é uma montanha russa.
Idas, vindas, tristezas, alegrias, tudo é passageiro, mas isso todos já sabemos, não?
Sentia-se feliz naquele instante, sem motivo, por que achar motivos para tanto? Basta apreciar o momento.

Não, nada de novo havia ocorrido, sem novos amores, sem novo emprego, sem ganhar na Mega. Nunca apostou, aliás. Não acreditem, mas nem beber este caro personagem bebeu. O vinho ainda estava fechado em casa, as outras bebidas também. O tão envolvente livro na sua cabeceira continuava lá, e a xicará de café vazia, sem ter sido preenchida aquele dia.

Desceu, andou pelas ruas semidesertas, com as lojas fechadas. Feriado é sempre assim. Não encontrou ninguém, mas sorriu a desconhecidos, e desconhecidos sorriam de volta. Nem sempre, mas sorriam.

Noites frias fazem as pessoas se tornarem mais calorosas.

Enfim, voltou, ainda sem café. Um dia bom. O sono. Boa noite.
Já ouvi isso antes, de forma tão diferetemente parecida. Ainda assim, boa noite.

As horas passam, o sono vai, o sono vem, Boa noite, já lhe disse.
Ainda não percebeu que o tempo brinca? Faz isso com o mesmo divertimento com o qual brinca com seus próprios cachos.
Beijos, boa noite, nos vemos... ...quando for o tempo.

Então dorme, com um sorriso feliz no rosto. Lembrando de risos que não deveria ouvir, e de olhos que queria olhar.

domingo, 7 de novembro de 2010

O Sonho do cotidiano

Disparo a arma apontada para minha cabeça, microssegundos da morte certa, mas eu sou o que penso, e meu pensamento é muito mais rápido que isso. Até que tudo termine já terei criado infinitos universos, infinitos sonhos. Mas pensando bem, o suicídio é sempre tão presente em mim.

Acordo com alguém me cutucando, me assusto, devo ter perdido minha parada, mas era só um rapaz com um bilhetinho pedindo dinheiro. Verifico minha jaqueta, 5 centavos, bem, afinal é o que ele pedia no papel, estranho, nunca dou dinheiro assim.
Não estou no ônibus, estou no metro. Mas que eu estou fazendo no metro? Olha em volta, uma guria sentada comigo, não conheço, pessoas em volta, uma de bicicleta. A garota ouvia música no seu smartphone, resolvi ouvir também, não encontro meu iPod. Como assim estou sem ele? O que está acontecendo?
O trem para na estação aeroporto, mas eu não desço. Novamente estranho isso, não tenho descido em outra estação ultimamente. Também não desço na rodoviaria, mas não consigo lembrar o que eu faria no mercado. Olho para os olhares em volta, sedentos por algo diferente... cultura... Epifania. A Feira, é pra lá que vou, não vou?

Vou na Feira, passeio pela ala internacional, vejo alguns títulos, mas não compro nada, não posso gastar nada. Vou ver o rio, esse ano não tem navios para se embarcar. Caminho pela feira, tem uma pontezinha esse ano na praça? Tá, esse sonho tá passando dos limites. Bem, vamos atravaessar a ponte então. HEY, quem é aquele? O David Coimbra? Assim, passando por mim? E eu sem nada pra pedir autógrafo...

Vou no Santander, que isso? Quadros vivos. E pessoas famosas neles. Tá ficando muito tenso isso.

Ando pelas bancas, não posso comprar nada, mas tem alguém me observando. Aquela jovem ali, observo de volta, mas ela não desvia o olhar, continua me encarando. Droga, eu não desvio o olhar para os livros da sua banca pra tentar puxar um papo, e sou arrastado pela multidão. Mas peraí, ela não viu meu olhar, eu to de óculos escuros. O que estou fazendo de óculos escuros? Nunca uso isso, ou quase nunca. Bem, depois eu volto, Travessuras e Gostosuras na Feira do Livro.

Vou pra Casa, a do Mario, sabe? Pessoas esdrúxulas tirando foto da vaca pintada sem nem olhar pra ela, é cultura isso?

Volto, a garota sumiu, droga, terei de voltar outro dia. Encontro uma amiga da faculdade, justo aqui, no meio de tanta gente. Encontro mais a frente uma professora, daquelas que eu gosto.

Vou pra casa, a minha, sabe? No metro garotinhas ficam me cuidando, que coisa isso, e eu de óculos escuros, ainda bem, são jovens demais, ficam se empurrando aparentemente dizendo uma para a outra para virem até mim. Aiai, essas moçoilas.

Centro de São Leo já? Vou pra praça. No caminho mais moçoilas, 15 ou 16 anos, cheiravam a isso pelo menos. Passo por elas, murmurinho, "que gostoso" sussurrado, olho de lado, "ele ouviu, que vergonha" sussurrado, risinhos.

Ninguém na praça. Vou pra casa. Cansado, foi um bom dia, foi um bom sonho, sozinho, como os melhores sempre são.

Acordo.
E a bala? Ah, já desviei, essa bala de tudo que estava me matando aos poucos, e que ninguém me salvava. Me livrei sozinho, como sempre. Agora é voltar pras discussões que deixei pendentes.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Antes da vida, antes da morte

- Hum, e depois, o que aconteceu?
O barman parecia desinteressado, mas era sua função manter o bêbado acordado enquanto continuava bebendo.
- Depois que eu guspi no rosto dele ele puxou uma adaga e colocou no meu pescoço, ó a marca aqui.
O homem levanta a cabeça e mostra a cicatriz.
- Hum, foi bem feio mesmo, mas por que ele não te matou?
- Não sei, eu fiquei encarando ele, e então ele me soltou. Parecia estar me testando.
- Nossa, incrível tu ter passado por tudo isso. Mais uma dose?
- Ah sim, manda aí.
O barman serviu outra dose, depois outra. Era uma longa história.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Captain! My Captain!


O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
            But O heart! heart heart!                                                                                          5
                        O the bleeding drops of red,
                                   Where on the deck my Captain lies,
                                               Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells,
Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,                                                    10
For you bouquets and ribbon’d wreaths – for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
            Here Captain! dear father!
                        This arm beneath your head!
                                   It is some dream that on the deck,                                                    15
                                               You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;                                                   20
            Exult O shores, and ring O bells!
                        But I with mournful tread,
                                   Walk the deck my Captain lies,
                                               Fallen cold and dead.
Walt Whitman


Weather (v): to come safely through a difficult period.
Rack (n): great pain.
Keel (n): a structure made of wood or steel along the bottom of a ship, on which the framework is built.
Vessel (n): (a large) ship.
Grim (adj): very serious in appearance.
Bugle (n): musical instrument like a small trumpet.
Ribbon’d wreath (n): an arrangement of flowers and leaves twisted into a circle. In this case, decorated with strips.
A-crowding (v): becoming crowded.
Swaying (adj): moving from side to side.
Safe and sound (idiom): not damaged.
Tread (n): step.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sobre viver, mudar e decidir

Momento de um post falado, um momento Lucky [sim, ele esperou por Godot {bem, não diretamente}] talvez... Vou olhar mais um video da Tessa e já continuo...

...

Ok, voltei...

Enfim, batatas cozidas em música troglodita bruscamente retorcida petulantemente ondulante e embarassada futebol vizinhos café requentado de madrugada numa noite estrelada com o pensamento distantemente numa distorsão indireta da realidade indissolúvel e conturbada Harley-Davidson David Coimbra cultura casa Quintana Ver!ssimo epifania gruta grita risada sorriso expressão dimensão caneca personal computer Google Trevanian livros muitos sebos amontoados num mar de vozes estranhamente sutis e distintas de maneira inintelegível apreciação da verdade mentirosa da casa da Joana e sua petulante mão conduzida por sua afável mãe calor vento chuva luz pessoas saudades curiosidades passado presente perfeito amor muro cão latido miado esguio flor nada mais compreensão de uma mente desunidamente reequilibrada razão e emoção estrelas num céu escuro.

Entendeu não? Então o dignissímo texto serviu ao seu propósito.
Não gostou? Não tive intenções de gosto, apenas de não entendimento.
Loucura? Sim, e necessária.
Por que? Sem motivo.
Heim? Isso mesmo, necessária e sem motivo. Lucky me lembrou, sempre lembra.
Quem? Lucky, já disse.
Donde? Aiai, "Waiting for Godot". Procure no YouTube. Acho que não tem em português.
Só isso? Não, agora senta que eu volto a ser eu.
Já estou sentado! E agora? Agora ignore o mundo, coloque uma boa música em uma linguagem que você não entenda, e leia, se você chegou até aqui, leia.

Nesse momento estou em dúvida se crio o resto da postagem baseado em reflexões do comportamento humano ou se faço você que está lendo refletir sobre isto.

Sabe, quando nem havia nascido eu quase morri, o cordão umbilical havia se enrolado no meu frágil pescoço fetal, mas não morri. Quando tinha poucos anos de vida, sempre cheio de doenças, quase morri uma noite, minha mãe me achou já frio na minha cama, me levou às pressas para o hospital, enrolado no cobertor, lá graças a uma injeção sei lá de quê usada em ultimos casos [que ou te salva, ou mata de uma vez] eu sobrevivi. Alguns anos mais tarde, brincando com meu irmão, um primo e um vizinho, construindo uma 'cabana' com dois cavalete e um barril de latão aberto, tudo desmorona, junto com as pedras que estavam em cima para manter o latão no lugar, durante muitos anos carreguei a cicatriz no meu pescoço de onde caiu, mas parou antes de alcançar realmente fundo, além de um dedão do pé quebrado. A alguns meses atrás quebrei o tornozelo, levantando do sofá, descobri que tenho osteopenia.
Aprendi a me auto-controlar, a ter paciência, a dar valor à moral, à honra e àquilo que eu considerava correto. Teci, por mim mesmo, minhas concepções de filosofia e sabedoria, e mais tarde vim a saber que oa antigos tinham idéias muitos semelhantes as que eu supunha. Escondi-me do mundo, e dele tentei aprender tudo o que pude, o que vivi, o que ouvi, o que vi, o que li, o que não vivi. Sofri, ah como sofri. Cheguei a um ponto em que o isolamento se tornou a minha maior verdade, pela vida, por opção, por amor, com dor, quebrei esse afastamento.
O mundo, ah já o conhecia, não me surpreendi, mas o senti, era o que me faltava, foi o que me completou. Conhecimento, sempre se pode ter mais, mas falo de ser e não ter, sou completo, mas não estou completo.

Sim, essa é minha vida, pela qual passei, na qual vivo, sem pressa, sem parar, sempre tudo ao seu tempo, aprendi que se não for assim, não a viverá, mas sim se arrependerá do como poderia ter vivido, ou de como viveu algo antes da hora.

E chegou agora a hora de fazer calar esses que estão por aí, a repetir palavras alheias, pessoas que não desenvolveram seus próprios pensamentos. Pessoas que por lerem muito e conhecerem pessoas com um grande conhecimento acumulado acham que têm opinião própria.
Rídiculos, vomitam as palavras proferidas por pensadores de milênios atrás. Se deixam levar sem notar por formadores de opinião, e cospem para cima quando resolvem falar sobre assuntos que sequer conheceram pessoalmente. Ousam satirizar e criticar quando alguém lhe dá uma opinião contrária a que lhe foi enfiada goela abaixo anteriormente, não sabem respeitar e aprender, a não ser que seja das mesmas fontes, como fantoche que não aceita outras mãos a não ser a do dono.
Vamos ver como será quando suas preciosas teorias forem quebradas e jogadas ao abismo, quem sabe a mediocridade dessa geração finalmente olhe para si mesma.

domingo, 15 de novembro de 2009

Solidão

Certo, agora, ignoro o orkut, ignoro o twitter, ignoro o WLM (velho MSN). Apenas uma boa música nos fones. Vamos ao post.


"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto de mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é o que se recusa ás verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."
[Vinícius de Moraes]

Esse texto, cortesia do perfil do Frodo, me fez considerar estar utilizando esse termo "Solidão" equivocadamente.
Claro, o que o Vinívius disse não é uma verdade universal, nem deve ser considerada assim, mas gostei da sua conceituação.

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Olhou ele para aquele manto sombrio que se aproximava, não piscou, mal respirou. Nada havia em seu interior que pudesse ser visto. Ele perguntou:
- Quem é você?
Do manto saiu um som, quase um murmúrio, mas claro em seu contexto.
- Sou seu amigo, o único em que confia totalmente. Não se recordas de mim?
Ele pensou em todos os seus amigos, conhecidos, mas nao encontrou nenhum em suas memórias em que realmente confiasse. Então disse-lhe:
- Ainda não sei quem és.
- Sou seu amor, sua amante, a única a quem se entregou totalmente. Não lembras?
Novamente vasculhou suas memórias, mas não, não havia ninguém importante assim na sua vida.
- Não, ainda não de você.
- Sou quem fez suas mãos tremerem, sua pele arrepiar, sua fúria revelar-se, seu grito ser ouvido.
Ele ficava cada vez mais perdido. Abaixou a cabeça mostrando-se pensativo, e ao fazer isso notou o manto aproximar-se e aparentemente aumentar de tamanho.
- Tolo. Não reconheces sua própria alma. Tão preocupado que estava consigo mesmo durante sua vida que esqueceu-se de mim. EU, que tanto lhe fiz sentir, que tanto lhe aconselhei, mas tu me ignoravas sempre. Tanto o fez que assim fiquei, vazia, um reles trapo ao vento. E agora, nada mais pode fazer, sua vida se foi, os amigos em que nunca confiou, os amores que nunca amou, os sentimentos que nunca experimentou, estão todos perdidos para todo o sempre para você. E eu que deles sou feita, de mim nada mais resta, eu que devia ser sua companhia pela eternidade, seu porto seguro na vida eterna, agora é o fim...
Ao dizer isso o manto voou, mas simplismente por causa do vento momentâneo que passou pelo local, caindo logo a frente ao chão.
Ele nada falou, olhou ao redor, estava em uma bifurcação, em uma estrada de chão batido, sem placas, um dos caminhos levava ao sol nascente, o outro à lua que se punha.
Sentiu um calafrio, e uma leve brisa soprou sobre ele, fazendo o manto ao chão mover-se um pouco.
Andou, pegou o manto, vestiu-o.
Virou-se, e caminhou pelo caminho de volta, deixando a bifurcação para trás.
Acordou sentado no chão, encostado na parede do banheiro. Olhou para a pia onde estavam os frascos dos remédios. Depois de conseguir levantar-se, pegou a carta de despedida que havia escrito e queimo-a.
- Não vai acabar assim.
Foi ao quarto, olhou-se no espelho.
- Malditas alucinações.
Pegou a arma na gaveta, apontou para sua cabeça, sentiu o frio do metal.

Olhou em volta, havia uma bifurcação, e um abismo às suas costas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Fatalismo

Uma geração vai, a outra geração vem;porém a terra para sempre permanece.
E nasce o sol,e pôe-se o sol,e volta ao seu lugar donde nasceu.
O vento vai para o sul,e faz seu giro para o norte; e continuamente vai girando o vento,
e volta fazendo seus circuitos.







Eclesiastes - I,4,5,6