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domingo, 27 de maio de 2012

Rosas, pela Torre

Conhecimento Delirante.

Tempo... Tempo, tempo, tempo, tempo...
TEMPO, maldição, o tempo.

Com as rosas e com a Torre um ciclo se fechou, claro como o futuro em uma poça d'água, e um novo se abriu. Mas novos ciclos são complicados, pois nunca se sabe o que se esperar deles, e qual o melhor modo de os começar.
De nada adianta olhar para aqueles belos anos em que outrora havia felicidade. Novos ciclos são egoístas, querem liberdade, querem amor de verdade. Novos ciclos, famintos de fé, famintos de ouro e de pão. Famintos de DOR.
É como criar um título para uma história sem início, meio e fim.

Ele sobe na torre e para na frente de uma porta com seu nome escrito, e ele não quer atravessá-la. O caminho é longo demais, e a chegada final é breve demais. Não há recompensa final, a não ser a poeira nos seus pés surrados, o cabelo desfeito pelo vento e o rosto surrado pelo sol.
Depois de muito andar o corpo clama pelo descanso merecido, mas ele não existe, o caminho segue, ele volta ao princípio e o homem de preto continua.
Palavras, momentos. Vento e tempo. Olhar, sussurrar.

Palavras pequenas e um grande momento, assim foi o princípio dos tempos, assim é o princípio de todos os tempos e de todos os momentos, todos os ciclos e todas as vidas.
Vá ciclo, gire, que gire a roda, que rode o ka, que vire a maçaneta, e que abra a porta para um sem fim de caminhar.
Que venha a dor, venha meu amor, cansei de ser feliz.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tempo, o deus


Tudo não passou de um sonho, porém parecia tão real, era tão real, que verdadeiramente aconteceu.
O dia estava frio, e o rapaz acompanhava uma jovem até a sua casa. Nada demais, já fizera aquele caminho antes, e esperava ainda fazê-lo muitas vezes.

Cronus, porém, não estava satisfeito com esse desejo mundano do rapaz. E quando Cronus não está satisfeito, corra, apenas corra, antes que o tempo consiga  alcança-lo.

Era um rapaz comum, de modos comuns, vida comum, desejos comuns. Um rapaz ordinário, no sentido original da palavra. E era isso o que perturbava o grande deus do tempo, pois a garota de comum, nada possuía. E ele a queria.

Cronus tentou mata-lo, por diversas vezes ele tentou. Mas algo além do tempo o impedia. Não, não era nada disso de amor e essas baboseiras filosóficas, era algo profundo, vindo do caos. A vida do guri estava salva, e Cronus soube que nada poderia fazer a esse respeito.

A garota, entretanto, não estava longe o suficiente das garras do tempo. Foi agarrada e arremessada como uma boneca de pano. Transformou-se em nada mais do que um fantoche nas mãos hábeis do deus.
Ele, com todo o sentimento que uma divindade pode sentir, feriu o garoto. Estilhaçou sua mente e partiu sua alma. O corpo intacto, nada mais do que uma casca vazia.

Isso o marcou com a aura da morte. Cronus, adentrou seu pensamento e deixou escorrer o seu poder.
Eras foram envelhecidas em instantes, e os olhos do rapaz se tornaram opacos. Verdades, mentiras, metades, guerras, mortes, vidas, o infinito e a eternidade, o Alpha e o Ômega.

O podre e ordinário rapaz se tornou o próprio conhecimento. O tiro pela culatra do tempo.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ele acorda

Ele acorda. Sempre na primeira vez que o despertador toca. Por vezes, até mesmo antes.

Ele tem a sua rotina, ah, já a muitos anos. Vai para o banheiro, banha-se, volta para o quarto, veste-se, pega sua grande maleta cinza e vai trabalhar.
Não come nada em casa, não gosta de preparar nada pela manhã, mas cozinha bem. Compra um café no bar da esquina e algo para comer, que varia de acordo com o dia.

Continua andando, não tem carro, tampouco gosta do ônibus durante os horários de pico. Seus sapatos são bem cuidados, pretos. Usava também óculos pretos, em contraste com sua tez clara.
Antes de entrar no prédio onde iria trabalhar, comprou mais um café, tomou, e então continuou seu caminho.

Subiu pelo prédio, trabalhava no alto, e era um prédio alto. Quando chegou, tirou seu material de sua grande maleta cinza e se pôs a fazer o que devia ser feito.

Terminou tudo com uma velocidade espantante para um dia quente como aquele. Desceu o prédio, comprou um jornal na banca e percebeu o aglomerado de pessoas na praça à sua frente.
Imaginou alguém morto ali, e as pessoas, como corvos famintos ao seu redor. Morreu com um tiro, na cabeça, caso o tiro tenha sido certeiro.

Volta para casa, banha-se novamente. Limpa os seus sapatos pretos. Guarda com cuidado a sua grande maleta cinza. Coloca alguma música clássica no aparelho de som e então senta-se em sua poltrona para ler o jornal.
Sempre fazia isso, a música clássica o ajudava em concentrar-se no que estivesse lendo. A última coisa que lia eram os obituários, nunca se sabe quem pode-se encontrar neles.

Alguém toca a sua campainha, ele não se importa em olhar quem era. Morava em um apartamento, último andar, sem elevador. A mulher subiu todos os oito andares. Pois sim, era uma mulher.
Ele abriu a porta, ela entrou. A música na sala já era outra, contemporânea. Sentaram-se, conversaram durante algum tempo.
Foram para a cama, e depois ela foi embora.

E no dia seguinte haveria mais trabalho, como sempre.


Do papel, a vida.


Ele para na frente da máquina de escrever. Já fazia meses que não o fazia. Ele passava, a olhava, e só. Vez ou outra chegou a levantar o pano colocado sobre ela para que não ficasse empoeirada, mas ainda assim não a tocou.

Desta vez não apenas a tocou, colocou algumas folhas em branco e se preparava para escrever. Olhava as folhas e pensava em uma velha frase.
"rasgar uma folha em branco é como fazer um aborto"
E era, o cheiro de novo já havia sumido daquelas folhas, mas ainda estavam ali, esperando a hora de nascer.

A máquina estava bem lubrificada e cheia de tinta, diferente do escritor. Ele estava enferrujando lentamente desde antes de parar de escrever, agora estava ali parado, com os dedos sobre as teclas, pensando no que escrever, e como.

Não queria escrever sobre a vida, não, não agora. Mas lembrou-se do aborto e começou de qualquer modo. De uma maneira louca, esquizofrênica, os dedos se mexiam em uma velocidade em que seus próprios olhos bem treinados mal conseguiam ver. Escreveu. Preencheu as páginas uma atrás da outra, preencheu vidas, belas ou feias, corretas e erradas, mas vidas acima de tudo.
Não tirou as mãos da máquina de escrever sequer para alimentar o seu vício na cafeína. Sequer lia o que escrevia, olhar, mente e coração estavam focados, mais do que nunca, no seus olhos podia-se ver o brilho mais soturno que já houve. O brilho da morte, do assassino, do pistoleiro em frente à batalha.

Não houve erros na escrita, não houve correções. Não se pode corrigir a vida, não se pode apagar o que se escreveu, mesmo que no fim não goste.
Mas sempre se pode pegar uma nova folha e criar mais uma vida.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Daniela no Carnaval

David Coimbra



Daniela. Linda e reservada. Discreta. Queria namorar com ela. Estou falando em namorar, não em sexo casual, algumas noites de loucuras e prazeres inenarráveis. Compromisso, manja? Andar de mãos dadas pelo shopping. Cinema. Sorvete. Essas coisas.
Mas, claro, ela nunca havia me olhado duas vezes seguidas. Tinha lá um namorado. Dizia que gostava dele. Ele, lógico, era uma besta. Por que as mulheres bonitas e interessantes namoram bestas?

Bem, tudo ia normal, Daniela com sua besta, eu sozinho. Até chegar o Carnaval. Decidi ficar em Porto Alegre - ia trabalhar. À noite, fui assistir aos desfiles das escolas de samba. Fui apenas porque não tinha nada mais empolgante para fazer. Estava lá, meio entediado, pensando que talvez fosse melhor ter ficado em casa vendo Telecine Action, quando Daniela fez sua aparição. Foi isso que aconteceu - foi uma aparição. Ela estava no alto de um carro, era destaque da escola. Usava roupas sumárias, faiscantes, sambava equilibrada em um escarpim sem fim e abria os braços, como se saudasse o povo, os seus súditos. Era uma rainha. Isso que ela era: uma rainha.
Segui-a com os olhos, enfeitiçado. Ali, na arquibancada, decidi que precisava vê-la na dispersão. Não sabia bem o que ia fazer ou dizer, tinha vontade de me atirar aos pés dela, abraçar suas canelas macias e gritar, rouco de paixão:
- Minha rainha! Minha rainha!
Bem, talvez fizesse isso mesmo.

Rumei para a dispersão. Caminhava sofregamente, desviando das pessoas, batendo nelas, quase correndo. Cheguei lá, mas a princípio não a encontrei. Uma confusão de gente se pechando e rindo, as pessoas riem no Carnaval. Olhei, procurei, já estava desistindo, quando senti sua presença às minhas costas.
Virei-me, ansioso. Ela! Imponente. Soberana. Uma rainha. Abri a boca, ia falar algo, mas fiquei indeciso. Ela, ao contrário, deu um passo na minha direção. Ficou tão perto que eu podia sentir-lhe o cheiro doce do hidratante. Nívea, acho.
- Meu namorado viajou para Florianópolis - sussurrou ela, com uma voz tão meiga que me doeu o pâncreas. - Estou furiosa e quero companhia. Quer ser minha companhia hoje?
Não acreditei. Será possível? Será que fui lambido pela língua de fogo do Espírito Santo? Balbuciei:
- Arran - queria dizer algo mais inteligente do que arran, mas não consegui. Mesmo assim, ela entendeu:
- Então vamos.

Tomou-me a mão. Conduziu-me até o carro. No caminho, eu ia pensando: não é possível, vai acontecer algo, não tenho tanta sorte assim. Chegamos ao apartamento dela. Eu desconfiado, sentindo o coração bater no gogó.
Ela enfiou a chave na fechadura. Fiquei olhando a mãozinha girar a chave. Unhas redondas e curtas. Não gosto de mulher com unhas compridas. Uma volta para a esquerda. Duas. Ela sorriu para mim um sorriso de dentes pequenos. Bons dentes. Quem será seu dentista? Escolheu outra chave do chaveiro, uma maior, parecia uma daquelas espigas de milho nanicas, como eles fazem aquelas espigas? A porta se abriu com ruído. Ela sorriu de novo. Estava me viciando no sorriso dela.
Entramos.
- Vou buscar uma champanha - ela disse, armada com outro dos seus sorrisos perigosos.
Ofereci-me para abrir. Tive alguma dificuldade. É preciso ter polegares fortes para abrir champanhes. Consegui, afinal: POC!
Brindamos. Bebemos. Ela ficou bem perto de mim. Eu ofegava. Ela se aproximou mais. Mais.

Corta.
Não vou descrever todas as coisas maravilhosas que aconteceram naquele apartamento. Só revelo que acordei enrodilhado no corpo nu de Daniela e que essa é uma sensação que jamais esquecerei.

O Carnaval terminou e não encontrei Daniela outra vez. Dias depois, estava sentado no Lilliput, bebericando um chope cremoso com os amigos, e aconteceu. Lá vinha ela pela calçada. Estava com o namorado. O tal que tinha ido para Santa Catarina.
Caminhavam de mãos dadas. Mais do que mãos dadas, dedos entrelaçados. Prendi a respiração. Ela me viu. Veio na minha direção, puxando o namorado. Veio. Veio. A dois metros de mim, sorriu um sorriso arrancado do mesmo lote que me hipnotizou no Carnaval.
- Tudo bem? - cumprimentou-me.
- Tudo...

O namorado me olhou, desinteressado. Continuaram caminhando. Desapareceram na esquina da Padre Chagas. Compreendi que havia sido o instrumento da vingança de Daniela. Eu fora escolhido por ela para castigar o namorado.
Talvez devesse ficar feliz. Talvez. Mas, depois de conhecer Daniela, ter provado das delícias de estar com Daniela, como ia viver sem ela? Diga: como?

sábado, 25 de dezembro de 2010

Este é o meu último post

Talvez não o desse ano, certamente não o desse blog, mas o último de uma fase.
Fiz vários post sobre mim durante o ano, por falta de tempo, de criatividade, por simplismente precisar falar. Este é o último, por um bom tempo espero.

E chega o ano ao final, ano corrido, ano divertido, ano tresloucado e trancado. Pouco deixou de acontecer, e o que ficou pelo caminho está preso em promessas para o próximo. E imagino que ninguém saiba exatamente do que estou falando.
Talvez seja melhor assim. Talvez não.

Talvez simplismente esteja faltando café.

Fiquei sem tempo, mas tinha criatividade. Fiquei sem ambos. Estou com ambos, mas minha internet se foi até segunda ordem. Ano irônico.

É Natal e fiquei sem presente. É Natal, e não faz diferença alguma, a não ser o frango assado, e a lasanha 5 queijos que eu mesmo fiz. É Natal e logo mais o Noel e seu espírito vai sumir. É Natal e logo Jesus vai morrer, e depois ressucitar.
É o que dizem.
Não isso realmente signifique algo pra alguém. Nem que o tempo realmente exista.

Ainda falta café.

Amei, odiei, fiz amigos, e alguns inimigos também.
Me perguntaram se ainda gostava da Danusa. Eu disse 'claro', afinal, por mais que a vida ou qualquer coisa separe, nunca deixei de gostar de ninguém que eu tenha mesmo gostado, assim como desse ano mesmo, ainda gosto e muito da Yugi, aquela de cabelo curto. Assim como de alguns anos ainda amo a Paty.
Fazer o que? É a vida, a minha vida. Minha vida e das minhas paixonites. Que por mais passageiras que sejam, de certa forma são eternas.
É estranho nunca sentir um sentimento morrer... torturoso certas vezes.

Chegou o Natal e não presenteei ninguém. Alguns responderam minhas sms', responderam, mas lembrar de me mandar, ah, isso nunca lembram. Eu sou esquecivel, mas lido com isso a muito tempo pra ainda me preocupar.

Por que eu fui tomar todo o café antes?

Logo logo a Dilma assume. E eu estou preocupado com isso. E ainda vou criticar ela por aqui, e se merecer, elogiarei também.
Afinal a vida é isso.

Afinal... o que é vida?
Isso tudo que acontece entre o nascer e o morrer? Isso não é vida.
Vida, meus caros, é o nascer, e é o morrer. Nada além disso.
Você apenas precisa nascer um pouco mais, e morrer um pouco mais, então estará vivendo muito mais.

Ou não, afinal, estou sem o meu café.

Está na hora de voltar a andar, ouvir o mundo, quebrar teorias, magoar sentimentos, criar mundos, tocar nas feridas, elevar a estima, dar umas rasteiras, respeitar, provocar, discutir, polemizar. Está na hora de passar mais um café, melhor, dois. Acho que tu vai querer um também.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Corram para as colinas, o Marconi sumiu

Fonte: DeviantArt
Sempre imaginei o que pensam quando se dão conta que eu sumi. Sumi sem dar tchau, ou sumi de vez e não apareci por meses.


Repetindo o que já disse por aqui, nunca fiz parte de grupo algum, nem tive um amigo inseparável. Mas não é essa a questão. Eu simpatizo, gosto, me apego a pessoas, e não a grupos.
Já discuti com pessoas que se negavam a acreditar que nunca fiz parte de tribo alguma. Acontece que não aceito ter que me adaptar segundo o que os outros esperam, nem aceito conviver com quem não gosto por fazer parte do mesmo grupo, sempre fui orgulhoso demais pra isso.

Eu, eu, eu, eu, mais um post sobre mim? Sim, enquanto minha criatividade andar em baixa vai ser assim, volta e meia um post depoimento de mim mesmo.

Enfim, sumo pra aliviar a cabeça. Se eu sumi é porque tinha algo me incomodando há tempos, ou um comportamento que me incomodasse, ou companhias que me irritassem. Comportamentos de quem eu gosto, e as companhias da pessoa ou pessoas que eu tenho afinidade. Não vou discutir, não vou brigar, e pra evitar ficar emburrado num canto, vou sumir. Afinal, já sou dificil de conviver normalmente, vai me querer por perto emburrado num canto?

Sumo, mas volto, mais cedo ou mais tarde. Sumo, mas deixo recado. Sumo, e se fosse tão importante, me chamariam de volta, coisa raríssima de acontecer. Alivio a cabeça, conheço mais gente, que me apego ou não, ou volto pra aquelas que sumi em outros tempos.

Outra coisa, notei que tem uma coisa que ainda me deixa tímido. Estar num ambiente estranho com pessoas que são muito chegadas entre si. Acho que me intimida, talvez por isso sempre tente levar quem eu gosto pra um ambiente neutro, ou que eu me sinta mais familiar. Quem nunca recebeu um convite meu pra ir em algum lugar que atire a primeira pedra.
Ou vai ver é culpa do estresse dos últimos tempos, a poeira está baixando, mas a trava mental é mais demorada. Tu fica focado nos problemas, e é dificil voltar sua mente pra coisas que realmente importam, tipo, viver.

Por fim, fim de semana em que revi Yugi, Gi e o Biel, e conheci mais uns que não lembro o nome. Não tava nos meus melhores dias, não mesmo, aliás nem lembro se eles já me viram 'solto' verdadeiramente, mas um dia verão, ou não, vai saber... ao menos espero que sim, é algo que não se esquece. [E daí aparece o Frodo falando do dia na embaixada que me viu alegrinho da bebida]
Bueno, beijo e tapa na bunda pra Yugi [Já falei que ela tem cabelo curto? tá, tá, parei] e pra Gi [Ah o Frodo já falou das trancinhas por aqui em algum post perdido por aí]. E um 'de nada' pro Biel por ter ensinado o truque da cordinha com o qual ele vai poder pegar várias garotinhas, mas nada de pedofilia, ok?

Eras isso por hoje, esqueci algumas metáforas que queria colocar e o assunto pro próximo post, mas acho que encontrei a solução de um problema pra um trabalho da uni.

Sem mais

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Coloridos



Deixando bem claro, eu muitas vezes faço o comentário errado na hora errada. Não é algo que eu premedite, simplismente acontece. É algo que se tornou natural, pelo simples motivo que eu gostar de ver a reação das pessoas quando suas ideologias são contrariadas, mas que nem por isso quer dizer que eu não respeite a opinião de cada um.


Agora, o que dizer sobre essa geração colorida crescendo por aí?
É uma tribo sem ideologia e sem contexto.

Ou talvez eu pense demais na época em que cresci e nas pessoas com quem convivi. Quando uma pessoa tinha um estilo diferente, um visual fora do padrão, um comportamento alternativo àquele ditado pela sociedade, junto com isso vinha todo um discurso. Fosse a respeito de religião, política, literatura, filosofia, antropologia etc.
E é isso que me irrita nessa geração colorida. Primeiro começaram a se vestir como crianças, depois a demonstrar um QE também de crianças [de no máximo uns 7/8 anos], evitam conflitos, não colocam a boca no mundo por assuntos realmente significativos ["vô xingá muinto no tuíter!!!"], acham que todos devem ser liberais e ainda sonham com um mundo e uma vida utópica.

Estaria eu errado em criticar os pais destas criaturas?
Ao meu ver, os pais, sempre viram essas tribos da minha época com preconceito, preconceito esse que gerou discriminação. Daí, logicamente, eles é que não iam querer que seus filhos virassem uns revoltados/anarquistas/punks/desordeiros, então preferiram manter os seus filhos alienados, despreparados para a realidade do mundo. Mas todo jovem mais cedo, ou mais tarde, muda. E eles mudaram. Mudaram para isso que são, e pararam nisso, não evoluiram, mas por que?
Ora, os seus pais observaram essa mudança, e não viram aquele perfil agressivo e questionador o qual eles tanto temiam, então decidiram não ir contra esse novo perfil. E foi isso que faltou, o conflito necessário para que essa geração evoluísse seu pensamento, buscasse informações, contextos, histórias.




Se esse arco-íris vai durar muito tempo eu não sei, só sei que eu vou é continuar no meu mundo em preto e branco. Te garanto que meus tons de cinza são muito mais expressivos e ácidos que essas cores gritantes a lá Tiririca.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sobre viver, mudar e decidir

Momento de um post falado, um momento Lucky [sim, ele esperou por Godot {bem, não diretamente}] talvez... Vou olhar mais um video da Tessa e já continuo...

...

Ok, voltei...

Enfim, batatas cozidas em música troglodita bruscamente retorcida petulantemente ondulante e embarassada futebol vizinhos café requentado de madrugada numa noite estrelada com o pensamento distantemente numa distorsão indireta da realidade indissolúvel e conturbada Harley-Davidson David Coimbra cultura casa Quintana Ver!ssimo epifania gruta grita risada sorriso expressão dimensão caneca personal computer Google Trevanian livros muitos sebos amontoados num mar de vozes estranhamente sutis e distintas de maneira inintelegível apreciação da verdade mentirosa da casa da Joana e sua petulante mão conduzida por sua afável mãe calor vento chuva luz pessoas saudades curiosidades passado presente perfeito amor muro cão latido miado esguio flor nada mais compreensão de uma mente desunidamente reequilibrada razão e emoção estrelas num céu escuro.

Entendeu não? Então o dignissímo texto serviu ao seu propósito.
Não gostou? Não tive intenções de gosto, apenas de não entendimento.
Loucura? Sim, e necessária.
Por que? Sem motivo.
Heim? Isso mesmo, necessária e sem motivo. Lucky me lembrou, sempre lembra.
Quem? Lucky, já disse.
Donde? Aiai, "Waiting for Godot". Procure no YouTube. Acho que não tem em português.
Só isso? Não, agora senta que eu volto a ser eu.
Já estou sentado! E agora? Agora ignore o mundo, coloque uma boa música em uma linguagem que você não entenda, e leia, se você chegou até aqui, leia.

Nesse momento estou em dúvida se crio o resto da postagem baseado em reflexões do comportamento humano ou se faço você que está lendo refletir sobre isto.

Sabe, quando nem havia nascido eu quase morri, o cordão umbilical havia se enrolado no meu frágil pescoço fetal, mas não morri. Quando tinha poucos anos de vida, sempre cheio de doenças, quase morri uma noite, minha mãe me achou já frio na minha cama, me levou às pressas para o hospital, enrolado no cobertor, lá graças a uma injeção sei lá de quê usada em ultimos casos [que ou te salva, ou mata de uma vez] eu sobrevivi. Alguns anos mais tarde, brincando com meu irmão, um primo e um vizinho, construindo uma 'cabana' com dois cavalete e um barril de latão aberto, tudo desmorona, junto com as pedras que estavam em cima para manter o latão no lugar, durante muitos anos carreguei a cicatriz no meu pescoço de onde caiu, mas parou antes de alcançar realmente fundo, além de um dedão do pé quebrado. A alguns meses atrás quebrei o tornozelo, levantando do sofá, descobri que tenho osteopenia.
Aprendi a me auto-controlar, a ter paciência, a dar valor à moral, à honra e àquilo que eu considerava correto. Teci, por mim mesmo, minhas concepções de filosofia e sabedoria, e mais tarde vim a saber que oa antigos tinham idéias muitos semelhantes as que eu supunha. Escondi-me do mundo, e dele tentei aprender tudo o que pude, o que vivi, o que ouvi, o que vi, o que li, o que não vivi. Sofri, ah como sofri. Cheguei a um ponto em que o isolamento se tornou a minha maior verdade, pela vida, por opção, por amor, com dor, quebrei esse afastamento.
O mundo, ah já o conhecia, não me surpreendi, mas o senti, era o que me faltava, foi o que me completou. Conhecimento, sempre se pode ter mais, mas falo de ser e não ter, sou completo, mas não estou completo.

Sim, essa é minha vida, pela qual passei, na qual vivo, sem pressa, sem parar, sempre tudo ao seu tempo, aprendi que se não for assim, não a viverá, mas sim se arrependerá do como poderia ter vivido, ou de como viveu algo antes da hora.

E chegou agora a hora de fazer calar esses que estão por aí, a repetir palavras alheias, pessoas que não desenvolveram seus próprios pensamentos. Pessoas que por lerem muito e conhecerem pessoas com um grande conhecimento acumulado acham que têm opinião própria.
Rídiculos, vomitam as palavras proferidas por pensadores de milênios atrás. Se deixam levar sem notar por formadores de opinião, e cospem para cima quando resolvem falar sobre assuntos que sequer conheceram pessoalmente. Ousam satirizar e criticar quando alguém lhe dá uma opinião contrária a que lhe foi enfiada goela abaixo anteriormente, não sabem respeitar e aprender, a não ser que seja das mesmas fontes, como fantoche que não aceita outras mãos a não ser a do dono.
Vamos ver como será quando suas preciosas teorias forem quebradas e jogadas ao abismo, quem sabe a mediocridade dessa geração finalmente olhe para si mesma.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal - versão Marconi

Lá esteve ele, Pietro, com sua idade contada nos dedos das mãos, com o chinelo na janela, esperando o bom velinho. Distraiu-se por um momento, foi alguém que lhe chamou a atenção sem motivo, quando olhou novamente lá estava uma mão, com uma luva branca e a manga vermelha do casaco, colocando um pequeno caminhão sobre seu chinelo. O brinquedo? Não importava, o tamanho ou a qualidade, ele vira, o papai Noel existia.

Lá estava ele, Pietro, com a puberdade juvenil estampada no rosto, observando o templo ao seu redor. Enfeites, fé, pensamentos direcionados. Preferia ocultar seus pensamentos e opiniões, ainda que pertinentes para poder estar ali, participar de algo. Precisava daquilo, ainda não estava preparado para a verdade, esta que já possuia, e por não saber o que fazer, preferia ignorá-la, preferia ser o que se esperava.

Cá estava ele, Pietro, observando, afastado. O olhar velho e cansado, mas com um certo brilho incandescente à trepidar. Rasgou suas origens, suas bases, e largou-as sobre a brasa flamejante. Despedaçou-se então, despiu-se da hipocrisia, da superstição, do útil, do inútil, da superestima, da subestima, da estima, do sonho, da realidade, da vida e da morte. Caiu, já não restava-lhe como continuar, foi então que algo brilhou, de dentro de si mesmo, então explodiu num único raio de luz.

Ali está ele, Pietro, observando, afastado. Nu para o mundo, novo, renascido. Agora entendia, sobre si e sobre os outros, e além disso, aceitava naturalmente este conhecimento como parte do todo que se tornara. Andou por aí, passou por pessoas alegres, outras felizes, outras contentes, e via a diferença nisso. Andou em silêncio, sendo esse só quebrado quando encontrava no olhar de outrem aquela sombra taciturna, então sorria e dizia:

- Feliz Natal.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Estamos com fome de amor

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros
e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam
sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que
estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.
Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os
novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era
resolvido fácil, alguém duvída?
Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber
carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de
um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que
vão "apenas" dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa
marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a
carreira, a produção.
Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como
voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão
distante de nós.
Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de
relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como:
"Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada
"Nasci pra ser sozinho!" Unindo milhares ou melhor milhões de solitários em
meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos,plásticos, quase
etéreos e inacessíveis.
Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a
cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão
infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que
verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa
verdade de cara limpa.
Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio,
démodé, brega.
Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer
ridículos, abobalhados, e daí?
Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e
falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo
pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou
muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca
mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à
dois.
Quem disse que ser adulto é ser ranzinza, um ditado tibetano diz que
se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais,
pra quê pensar nele ? Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o
dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser
estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é 'out",
que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me
aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou
outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu
não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo
resto da vida".





Antes idiota que infeliz!

Arnaldo Jabour

sábado, 24 de outubro de 2009

Ações ao vento, e palavras corpóreas

Hoje está difícil escrever algo, pensar em algo para postar aqui, estou quase me entregando ao monólogo como o de Lucky na peça "Waiting for Godot". Mas resisto ainda. Assuntos tenho, mas organizar as idéias, me concentrar em um e conceitua-lo está difícil hoje.

Deve ser a sobrecarga de coisas mundanas que tenho suportado ultimamente, muita coisa, por muito tempo. Mas não, não pretendo ocupar os seus tempos lendo sobre como anda minha vida, isso é apenas um explicação, talvez não tão válida, mas ainda uma explicação plausível.

Meu dia deveria ter mais horas, só isso.

Ah, acheio um assunto nos arquivos da minha mente, simples, mas talvez seja o que preciso neste momento.

Romantismo.

Conheci verdadeiramente poucos românticos em minha vida. Sabe, no sentido completo da palavra, ao menos para mim.
Muito falam, ou melhor, vomitam, frases prontas oriundas de um pensamento romancista, abrem a porta do carro, são carinhosos, atenciosos. Mas isso os torna românticos?

Não.

Eles [digo 'eles' pois é o lado da visão que possuo] "estão" românticos, não o "são".
Estão românticos para agradar alguém, sua companheira, ou futura companheira.

Romantismo para mim é muito mais do que isso, é um estilo de vida. Não é fácil, nem simples, e por esse motivo digo que foram poucos aqueles que conheci que realmente o eram.
Já viu um homem romântico numa roda de amigos? Enquanto a conversa gira em torno de mulheres de vida fácil ou de como foi a última transa? Consegue ao menos imaginar isso?

E mesmo fora desse cotidiano, entre amigos, o puro romântico tem dificuldades, pois não é romântico para alguém, e sim por si mesmo, por querer ser assim, por poesia, ou ideologia. Sendo verdadeiramente poucos os que assim são, acabam sendo frequentemente confundidos com os românticos comuns, eventuais, e disso podem sair situações constrangedoras, ou até mesmo irritantes.
Digo isso pois existem aos montes pessoas que se superestimam, e quando esse tipo de pessoa entra em contato com um romântico a principal impressão que essa pessoa fica é de que está sendo desejada, que o romântico está tentando conquistá-la, mas na verdade ele está simplismente sendo ele mesmo.

Estranho não? Mas é a vida. Ninguém disse que ela é simples, ou que vale a pena no final. Talvez esse seja o motivo principal de ser um poeta morbido [quando me chamaram assim a primeira vez achei deveras estranho, fiquei até temeroso do porquê me chamariam assim, mas agora já assumo tal título com um certo orgulho].

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"Afinal, pessoas diferentes fazem o bem e o mal de formas diferentes. Nem sempre quem lhe deixa triste faz isso de propósito. E vice e versa."
"Amais o próximo como a ti mesmo."
Jesus Cristo
"Escute o réquiem de sua alma, e sorria, pois agora é tarde demais para entristecer-te."
M. Marconi

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Coca Cola:

Aconteceu numa tarde cinzenta, quando o mundo e as pessoas não tem cor. Tomando sua Coca Cola, depois de ter saído da biblioteca, com muitos livros em baixo do braço esquerdo. Andava distraída pela rua, de vitrine em vitrine, olhando de pessoa a pessoa, sem poder controlar sua mania de olhar para o céu e observar as nuvens. Atravessou a rua e foi ver as barraquinhas de produtos populares instaladas na praça. A praça era bonita, dessas cheias de árvores e bancos, onde passarinhos e crianças disputavam espaço. As barraquinhas ficavam no meio da praça, fazendo um círculo em torno do grande monumento à alguma coisa que ali se erguia.

Parou em frente a barraca de livros. Ela realmente amava livros. Observou alguns livros de capas novas que estavam mais a frente, mas logo perdeu seu interesse por eles ao ver livros mais antigos um pouco atrás. Ao ver que ela voltara sua atenção aos livros antigos, o dono da barraquinha se aproximou e ficou a observando. Educadamente, ela disse que estava apenas olhando. Cordialmente, com um sorriso e um aceno de cabeça, assentiu e disse que ficasse a vontade. Ela estava a vontade, sem dúvida alguma, em meio aos livros que tanto ama.

Puxou, então, um livro mais de baixo. O livro tinha uma capa preta, com uma caveira desengonçada desenhada e algumas espadas próximas a seu abdômem. Ela abriu o livro. O vendedor olhou seriamente para a moça, num misto de curiosidade e apreensão. Ninguem encosta nesse livro há meses, senão eu, quando ajeito os livros em pilhas em cima desta bancada, pensou ele. O rosto da moça se iluminava ao ler o conteúdo de uma página, escolhida ao acaso. Ela vai levar este livro, pensou ele. Ela largou a latinha de refrigerante ao lado, queria segurar apenas o livro nas mãos. Sentir o poder, a paz e a magia que tal livro lhe transmitia.

Doze minutos, pensou ele olhando no relógio, ela já está aqui há doze minutos lendo esse livro. Outro freguês se aproximou da barraca, olhou os livros mais novos e foi embora. Menos de dois minutos, calculou mentalmente o vendedor, e essa moça ainda está aqui lendo esse livro...

Passados mais alguns minutos, ela olha para o vendedor e pergunta: "Quanto custa este livro?" e o vendedor responde: "Dezessete reais, mas, para a senhorita eu faço por quinze. Eu percebi seu imenso interesse por ele." "Ah sim, obrigada..." ela pensou em falar, mas preferiu não dizer nada. Aproximou o rosto do livro e o cheirou num suspiro profundo. O vendedor a olhou encantado, ela está cheirando um dos livros mais velhos de minha banca!, pensou ele. Sem perceber que o vendedor estava hipnotizado ao ver tal cena, a moça fecha o livro e o coloca em cima da pilha de onde o retirou. O vendedor, hipnotizado, somente a observa, enquanto ela se afasta por entre as arvores da praça.

E ela deixou ali sua Coca Cola...

sábado, 19 de setembro de 2009

Como roubar um coração



Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto,
não se alcança o coração de alguém com pressa.
Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.
Conquistar um coração de verdade dá trabalho,
requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.
É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.
Para se conquistar um coração definitivamente
tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.
Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele,
vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós
e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade,
a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples...
é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você.


Luís Fernando Verissímo



Texto perfeito, meu pensamento é semelhante, sempre foi, mas sinceramente considerei o texto do Verissímo tão bom que uma tentativa minha de fazer algo semelhante sria um fracasso vergonhoso.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

(Sobre)viver

O que te faz continuar?
Erguer a cabeça após um grande problema e dar um passo a frente?
Amor? Ódio? Fé? Trabalho? Amigos?

O tempo?

Sim, tudo isso é capaz de fazer-nos continuar sobrevivendo nesse mundo, até levarmos outro baque e cairmos por chão novamente, e novamente, e novamente...

E vamos nos cansando de sempre nos levantarmos e despencarmos logo em seguida. Velhos encantos vão perdendo sua beleza, mas temos de sobreviver...
É como viver ao máximo o seu fim de semana, mas irremediavelmente ainda existirá a segunda feira.

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O que fazer com esse ciclo interminável então? Se sempre haverá algo para nos derrubar, para nos levar a depressão, para nos fazer chorar e soluçar no silêncio da noite quando temos apenas nossos pensamentos como companheiros?

Onde encontrar um sentido para viver?
Amor, ódio, fé, trabalho, amigos, e até mesmo o tempo, todos falham, ou nos trazem tristeza, limitações, e de alguma forma ajudam a nos derrubar em algum momento.

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Pensei por muito tempo sobre isso (algo por volta de alguns anos...), mas apenas recentemente achei uma resposta que me satisfizesse.

Arte.
Sim a arte, mas não a arte que encanta o povo e enfeita o mundo. A arte pela arte, por mim e para mim. Se gostam, aproveitem, eu não perco aquilo que dou, crio, recrio, morro, renasço, transformo, dou sentido ao mundo, meu mundo.
Pequenos e grande momentos de loucura, êxtase divino. Isso e apenas isso me salvou, e me salva a cada dia.

Acabo de ver um dente de leão pela minha janela.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Como ir ao cinema sozinho

Isso de ir ao cinema sozinho. Durante a semana, nenhum problema. Chego de mão no bolso, tomo um expresso antes, dou a chamada passada d'olhos... peraí, um apóstrofo, estava ansioso para usar um. Vou até repetir: dou uma passada d'olhos no último Ed MacBain que comprei ali na livraria e, enfim, entro na sessão. Ao fim do filme, saio tranquilo, vou para casa pensando na história, talvez encontre o Eduardo e o meu irmão Régis para um chope, e talicoisa.

O drama é o sábado à noite. Uma vez tentei ir ao cinema sozinho num sábado à noite. Cheguei lá e, puxa, todos aqueles casais. Eles ficaram me olhando:

- Olha aquele cara sozinho no cinema num sábado à noite.

Tenho certeza que apontavam para mim. Que cochichavam. Alguns riam. Eu, um cara sozinho, absolutamente sozinho, uma aberração. O que havia de errado comigo, que não estava de namorada? Será que ela havia me dado o bolo, coitado de mim? Será que nenhuma mulher desta cidade fervente de mulheres solteiras, descasadas, viúvas, sequiosas de companhia, será que nenhuma delas queria ir comigo ao cinema justamente num sábado à noite???

Era o que comentavam. Sei disso! Comprei meu ingresso e me aprumei. Queria salvar minha dignidade. Tentei aparafusar no rosto uma expressão satisfeita, de quem estava sozinho por preferência, entendem? Uma opção. Ensaiei até um meio sorriso. Se tivesse um celular faria de conta que estava conversando com uma moça. Falaria no tom que habitualmente as pessoas usam ao celular. Aos berros:

- Alô? Ah, oi, Clá. Estou entrando no cinema. Por que não te convidei? Bem, Clá, tu sabes que gosto de ir ao cinema sozinho. A solidão também é importante, Clá. Lembra quando tu ganhaste o Garota Verão e as pessoas não te deixavam em paz? Pois é, Clá. A solidão às vezes é um bálsamo. Depois? Está certo, depois do filme nos encontramos, querida. O quê? Heim? Ah, pode ser aquela calcinha preta de rendinha que tu usaste a última vez...

Mas não tinha celular. O único recurso era a linguagem não-verbal. Como se parece uma pessoa completamente satisfeita por estar sozinha no cinema num sábado à noite? Já sei: sobrancelha esquerda levantada, olhar sonhador de quem está esperando uma noite inefável, talvez um assobiozinho. Sim, um assobio pega bem.

Foi assim que entrei na sala. O filme começou. O mundo ficou sem importância por duas horas. Esqueci de tudo, até de que estava sozinho no cinema num sábado à noite. Mas, quando a ação acabou, as luzes se acenderam, como sempre se acendem. Os casais todos se levantaram, vestiram seus casacos, apanharam suas bolsas. Antes que reparassem em mim, saí pisando firme, sem olhar para os lados. Não queria encontrar ninguém conhecido. Deus me livre pegar a fama de quem vai sozinho ao cinema num sábado à noite.


Coimbra, David. Mulheres! p. 14-15